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Spray contra depressão inova tratamento

Autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no final de 2020, o primeiro medicamento inalável para o tratamento de depressão foi desenvolvido com participação do Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos da Universidade Federal da Bahia (Hupes/Ufba).
Com nome comercial de Spravato, o medicamento temaescetaminacomobase e aguarda a conclusão do processo de definição de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, órgão da Anvisa, para entrar no mercado. De acordo com a assessoria de imprensa da Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson e fabricante do medicamento, esse processo leva três meses, em média.
Coordenador da pesquisa no Hupes, o psiquiatra e professor Lucas Quarantini explica que o medicamento é indicado apenas para pacientes com depressão grave que não apresentaram resposta satisfatória a pelo menos dois medicamentos anteriores, e/ou que estão em risco iminente de suicídio. A escetamina é ministrada como spray nasal, propiciando uma absorção mais rápida.
Quando concluir todas as etapas prévias da comercialização no Brasil, o spray não será vendido em farmácias, pois é de uso exclusivo em ambiente hospitalar, ressalta Quarantini. É dessa forma
que o medicamento está sendo utilizado, desde março de 2018, nos EUA, e, desde o ano passado, no continente europeu.
“A administração desse medicamento tem de ser supervisionada pelo médico e o paciente deve permanecer em observação por um período que dependerá do nível de sedação, sonolência,
algum eventual desconforto…”, detalha o médico.
A necessidade de monitoramento se justifica por duas questões centrais, explica o psiquiatra: o risco do surgimento de sintomas dissociativos, com alucinações, ilusões e rebaixamento de
consciência; e a possibilidade de aumento significativo da pressão arterial. Enquanto o paciente estiver em observação, sua pressão será medida continuamente e, caso necessário, um medicamento para controle poderá ser ministrado.
“Casos leves terão probabilidade maior de resposta a outros medicamentos ou à psicoterapia, então a preferência é utilizar intervenções mais simples”, justifica Quarantini, sobre a indicação do spray para quadros graves e resistentes. Afinal, para fazer o tratamento com a escetamina inalável, a pessoa terá de ir ao hospital duas vezes por semana, permanecendo lá por pelo menos 40 minutos a cada vez.
Segundo o pesquisador, o tratamento inicialmente é feito por quatro semanas e após esse período, de acordo com avaliação do psiquiatra que acompanha o paciente, será feito um desmame ou
um novo ciclo de tratamento para prevenção de recaída. Ele explica que existem estudos da droga com quase dois anos de duração e redução significativa da ocorrência de recaída.
“É uma classe absolutamente nova, que não se baseia exclusivamente na ação de monoaminas, que são os conhecidos neurotransmissores”, ressalta Quarantini sobre o medicamento. Um
ponto de destaque é que enquanto a maioria dos antidepressivos leva cerca de duas semanas para produzir resultados perceptíveis, 50% dos pacientes testados apresentaram melhora após a
primeira aplicação.
Conforme o psiquiatra explica, o efeito rápido é resultado do mecanismo de ação específico do medicamento, sobretudo do efeito neuroplástico provocado, com impacto na produção
de sinapses. Ele acrescenta que ao longo do tratamento, cerca de 80%dos casos apresentaram uma resposta terapêutica satisfatória.
O Hupes/Ufba foi o segundo centro de pesquisa com maior número de participantes na fase 3 da pesquisa clínica do spray nasal contra a depressão. Os testes foram realizados em 50 centros, espalhados em 16 países. No Brasil, que participou com outros dois centros de testagem, a pesquisa foi realizada entre 2015 e 2016.
O estudo da aplicação de cetamina e seus derivados no tratamento de transtornos mentais é realizado há quase uma década no Serviço de Psiquiatria do Hupes, como parte do Programa Pesquisa para o Sistema Único do Ministério da Saúde. O foco dessas pesquisas é desenvolver medicamentos de baixo custo, logo amplamente acessíveis.
“A gente tem um estudo com uma outra apresentação da cetamina, que não provoca dissociação. Já tivemos os primeiros dados preliminares e seu estudo está em andamento agora”, completa o médico. Além disso, estão trabalhando em um projeto para transtorno de estresse pós-traumático e, provavelmente, iniciarão outro com foco no transtorno obsessivo compulsivo.
Olga Leiria / Ag. A TARDE / 27.11.2020

 

Cerca de 30% dos casos de depressão são resistentes, conta o vice-presidente da Associação Psiquiátrica da Bahia (APB), Ivan Araújo. Ele explica que a resistência fica caracterizada quando o paciente não apresenta respostas satisfatória após tentar tratamento com pelo menos dois medicamentos em dosagem plena.
“A depressão é um transtorno de humor que é caracterizado por um humor rebaixado a maior parte do tempo”, diz Araújo, lembrando que as pessoas deprimidas tendem a perder o
prazer em atividades das quais gostava anteriormente, além de apresentar perda de energia, alterações do sono e da alimentação. Pensamentos de ruína, sensação de culpa excessiva e a
possibilidade de ideias recorrentes de morte ou suicídio são outros aspectos destacados por ele.
O psiquiatra alerta que a depressão tem uma série de repercussões não só no cérebro, onde pode causar alterações estruturais e funcionais, mas também no organismo humano em geral.
Um exemplo é a queda na resposta imunológica, provocada, sobretudo, pelo aumento na produção de cortisol e de citocinas inflamatórias.
Entre os fatores de risco para o surgimento de depressão, o médico cita histórico familiar, idade avançada, o enfrentamento de acontecimentos muito estressantes e a ocorrência de episódios anteriores. Ele lembra que a depressão é multifatorial, conjugando os fatores ambientais com a vulnerabilidade genética, embora esse perfil genético não esteja estabelecido.
Enquanto cerca de 70% dos pacientes contam com várias opções de tratamento medicamentoso, aqueles com depressão resistente, atualmente, têm somente a eletroconvulsoterapia (ECT),
já que o spray nasal ainda não está sendo comercializado, esclarece o vice-presidente da APB.
Apesar de ainda carregar um estigma, Araújo afirma que a ECT é segura, sendo realizada em ambiente hospitalar, com anestesia geral e sob supervisão do psiquiatra, o anestesista e equipe de enfermagem. Tanto que é um tratamento aplicado em gestantes quando as opções medicamentos as oferecem risco de mal-formação ao feto.
O psiquiatra ressalta a eficácia da eletroconvulsoterapia contra a depressão resistente e nos casos com ideação suicida, mas lamenta o custo elevado do procedimento, que não está no rol da Agência Nacional de Saúde (ANS) nem é coberto pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em 2019, uma reportagem de A Tarde apurou uma média de R$ 3 mil por aplicação e, segundo Araújo, o tratamento requer de 8 a 12 sessões.
Considerando a bula do Spravato nos Estados Unidos e os preços compilados no site de busca de medicamentos www.drugs.com, a dosagem necessária para uma aplicação do spray nasal, que aguarda a definição de preço no Brasil, custaria 652 dólares.

Fonte: Jornal A Tarde – Coluna Ciência & Vida